sábado, 19 de setembro de 2026

Os hipogeus de Monte Canelas (Alcalar)

 

Esqueletos humanos transformados em pedra ao longo do tempo

Hipogeu: gruta artificial onde se faziam

enterramentos colectivos há mais de 4.000 anos.

 

  Não vou aqui entrar em pormenores técnicos sobre arqueologia ou antropologia. Isso deixo para os 'especialistas' que estudaram, remexeram, escreveram teses sobre o assunto e depois deixaram o achado ao completo abandono. O que lhes importa é o destaque do estudo. O prestígio que se adquire. O vestígio arqueológico, esse, já não faz falta; pode seguir no camião do lixo da História. Que se lixe!

Assim tem sido tratado o património histórico do Algarve. 

Local onde se achou o túmulo colectivo

 Monte Canelas está na 'periferia' da área conhecida como uma das maiores e mais importantes necrópoles do Calcolítico da Península Ibérica, hoje completamente destruída: a necrópole de Alcalar, no município de Portimão. Dos cerca de vinte túmulos pré-históricos conhecidos (haverá muitos mais), apenas dois se encontram intervencionados e visitáveis. Os restantes jazem sob os alicerces das vivendas ali ilegalmente construídas com a cumplicidade camarária, onde o turismo e a ditadura do betão ditam as regras.

Pormenor da configuração dupla do hipogeu, já ao abandono.

Nas décadas de 1980 e 90 documentei o sítio e as intervenções ali feitas onde já se previa, entre movimentações e ocultações por parte das 'entidades oficiais', a urgência de fazer desaparecer estas evidências arqueológicas o mais rápido possível a fim dos terrenos ficarem disponíveis para a expansão urbanística que clamava prioridades e direitos de ocupação de uma área classificada como Monumento Nacional. 

Ainda iniciaram escavações complementares mas ficaram por aí...

Entretanto chegou o "progresso"

Ficaram os 'buracos' abandonados e entulhados de lixo

Agora a pergunta incómoda: com tanto terreno municipal ainda disponível. havia alguma necessidade de ocupar e destruir este património, testemunho tão importante para a história da cidade de Portimão, para se construir esta espécie de 'feudos', exibicionistas de riqueza exterior que no fundo nada têm a ver com o turismo de massas que grassa pela zona costeira? É que este lugar é interior, isolado e (des)protegido pela lei permissiva que, nestas questões, teima em assobiar para o lado. Saberão os proprietários deste aldeamento moderno, que habitam e circulam em cima de um cemitério milenar?

Dá-lhes estatuto? Dá-lhes gozo? 

Sinceramente...