quinta-feira, 9 de julho de 2026

necrópole de Alcalar

 



"Os Monumentos Megalíticos de Alcalar eram um grupo de túmulos que compunham uma necrópole que se supõe do período Calcolítico ou anterior, localizada na freguesia da Mexilhoeira Grande, município de Portimão. Foram construídos por uma comunidade que habitou a área por volta dos quarto e terceiro milénios a.C., e que atingiu uma grande complexidade, devido à riqueza natural daquela área. O conjunto arqueológico era formado por cerca de vinte túmulos, além de uma povoação e cinco outros túmulos periféricos. Uns foram destruídos, outros estão em mau estado de conservação. Apenas dois dos monumentos funerários, o sétimo e o nono, foram restaurados e inseridos num percurso de visita, que inclui também um centro interpretativo."

O sítio arqueológico de Alcalar está situado perto da vila da Mexilhoeira Grande, e a cerca de 9 Km da cidade de Portimão. Insere-se numa área que vai desde a Serra de Monchique a Norte, até à Baía de Lagos a Sul, e que no período pré-histórico dispunha de um vasto conjunto de recursos naturais, como o conjunto lagunar da Ria de Alvor, e as ribeiras da Torre, Farelo e Arão, permitindo a realização de diversas actividades, como a pastorícia, a caça, a pesca, a agricultura e a recolha de moluscos. O topónimo do local, Alcalar ou Alcalá, é de origem muçulmana, desconhecendo-se o nome original.
 
Vista aérea dos Monumentos de Alcalar

 O antigo complexo de Alcalar incluía um povoado e uma necrópole, formada por vários túmulos megalíticos, organizados em vários grupos. Os monumentos funerários foram construídos em grés, tendo o arqueólogo Estácio da Veiga avançado a hipótese que a pedra terá sido extraída da área dos Pegos Verdes, onde se encontrava um conjunto significativo de afloramentos daquele material.
 
 Ambos os monumentos 7 e 9 têm uma forma aproximada de seio, levando à sua classificação como mamoas. Esta forma, em conjunto com a sua construção num local elevado, poderia servir para serem mais facilmente vistas ao longe, tornando-as como símbolo de poder por parte da povoação que os edificou, e que ficava situada numa colina próxima.
 
Devido à sua construção, em grandes blocos de pedra, tanto o sétimo como o nono túmulos são considerados como monumentos megalíticos. Os túmulos era utilizados apenas para os corpos dos indivíduos mais influentes no povoado, sendo a restante população enterrada noutro local. Isto é comprovado pelos adornos dos corpos nos interiores dos túmulos, em marfim, âmbar, cobre, ouro e pedras verdes, materiais que em certos casos tinham de ser importados de longas distâncias.
 
 

 A zona populacional de Alcalar estava localizada numa colina perto do local dos túmulos, consistindo num conjunto de estruturas, como edifícios e silos, parcialmente escavados no solo, sendo por isso categorizada como Recinto de fossos. Além destes conjuntos de fossos, também foram descobertas estruturas de combustão, e casas de planta semi-circular, com fundações em alvenaria. Neste local foi recolhido um vasto conjunto de espólio, incluindo vestígios de animais, como conchas, peças em pedra polida, e recipientes em cerâmica, o que, em conjunto com as estruturas, testemunha a presença de um povoado neste local, que terá funcionado durante um longo período, entre 3800 a 2000 a.C.
 

Conjunto de artefactos, entre os quais uma pulseira, pontas de setas, cabeças de machados, facas e um pote, encontrados em Alcalar. Em exposição no Museu de Portimão

 



sexta-feira, 25 de julho de 2025

rio Arate

 

Estela do Arade

O rio Arade que banha a cidade de Portimão e que banhou em tempos Maenoba (posteriormente Portus Hanibalis e Portus Magnus) é na verdade um estuário cujas águas oceânicas fazem sentir o efeito das marés até às ribeiras de Odelouca e Boina (seus afluentes) e à cidade de Silves. É a montante de Silves que chegam as águas da ribeira, com o seu nome, que colecta desde a nascente, na Serra do Caldeirão.

 Desconhecia-se a antiguidade efectiva do seu nome até que há uns anos foi descoberta a "estela do Arade" no lugar da Companheira, muito perto das grutas onde está a ETAR. Foi encontrada junto a um velho poço, oculta nas silvas, meio enterrada na vertical.

Local da Companheira onde a estela foi encontrada, na margem do rio Arade 
 

Trata-se de uma estela com inscrições do tipo 'escrita do sudoeste' que alguns presumem ter sido a "mãe" de todas as escritas. Não discutiremos isso aqui. Vamos só tentar traduzir os seus caracteres seguindo os estudos epigráficos que nos dizem que esta escrita se deve lêr da direita para a esquerda (e de baixo para cima). 


 

1º e 3º caracter   A_A__


 2º caracter         ARA__

 


 4º caracter          ARAT_

 


 5º caracter          ARATE

 

 

Arate, o nome do nosso rio Arade cuja origem pode afinal vir das profundezas do tempo. Os epigrafistas dizem que será tão antigo como do século XXX/XXV a.C. Talvez mais... Acrescente-se como curiosidade o símbolo do próprio rio que se pode ver por cima nas duas linhas onduladas. Curiosas também, as duas covinhas ao seu lado a quererem dizer-nos qualquer coisa.

 

Será que são as suas duas cidades Maenoba e Cilibe?


quinta-feira, 24 de julho de 2025

cidade de Mainoba

 

... de Onoba a Máinoba [ ] ...Desta atá à cidade de Ipsa, 24 estádios. Desta no estuário do A[rade] em linha recta até ao ponto em que se situa a cidade de Cilibe, 70 estádios. Da foz do Anas à extremidade do Promontório Sacro são 992 estádios.

Papiro de Artemidoro

Assim descreve o papiro, reutilizado um século depois do registo do seu autor o geógrafo grego Artemidoro de Éfeso que viveu no século II antes de cristo e que nessa altura viajou pela costa Algarvia tendo descrito localidades e distâncias marítimas entre elas.

Orientando-nos pela medida do stadia grego que vale 177 metros, teremos:

... de Onoba (Huelva)Máinoba (Portimão) [ ]  - a distância marítima é de 1.073 estádios (190 Kms). Esta distância não nos é indicada no papiro.

Desta (Máinoba) a Ipsa (vila de Alvor),  - a distância marítima é de cerca de 28 estádios (5 Kms). Não muito longe dos 24 estádios do papiro.

De Máinoba (foz do rio Arade/Ponta da Areia) até Cilibe (Silves/Rocha Branca) subindo pelo rio - são cerca de  74 estádios (13 Kms).   No fraseado do papiro nota-se que Cilibe se situa afastada da costa, e que os 70 estádios correspondem na realidade à distância marítima entre a foz do Rio Arade e o povoado da Rocha Branca, no fundo Norte do estuário do Arade. Este povoado que teve ocupação desde a Idade do Ferro até à época medieval islâmica, fica situado numa pequena elevação perto do Rio Arade, a cerca de 1 km da cidade de Silves. Acredita-se que tenha sido um entreposto comercial, possivelmente de origem fenício-púnica.

E resumindo, para tudo enquadrar: 

Da foz do Ana (rio Guadiana) ao Promontório Sacro (Sagres/Cabo de S. Vicente) - a distância marítima acompanhando a costa é de cerca de 960 estádios (170 Kms). Muito próximo dos 992 estádios do papiro.

A Ponta da Areia que deu lugar à marina. Neste local existiu uma cidade fenícia: Máinoba

 Portimão teve assim, aos seus pés e em tempos remotos, uma cidade portuária chamada Máinoba, possivelmente de fundação grega ou fenícia que desapareceu, estando com toda a probabilidade sepultada na zona entre a marina e o convento de S. Francisco. Mas antes de ser engolida pelas catástrofes naturais que se abateram sobre ela, ainda foi de cartagineses (Portus Hanibalis) e de romanos (Portus Magnus). Mas isso veremos depois...

Artemidoro de Éfeso

 

sábado, 7 de junho de 2025

Serra, mar e muito sol

 

Vista parcial da vila de Ferragudo (à direita) e da cidade de Portimão (à esquerda), separadas pelo rio Arade, com a serra de Monchique ao fundo
 

Benvindos a "Serra Mar Sol e História", o blogue que pretende dar a conhecer a riqueza do Barlavento Algarvio, as suas gentes e tradições, os seus secretos recantos, o seu património histórico e, principalmente, a beleza das suas praias Atlânticas.